Acho que nunca tive tanto orgulho da minha filha quanto estou tendo agora. Minha filha resolveu ser palhaça. É, palhaça. Ou "clown", como eles chamam os palhaços hoje em dia.
Quando minha filha era pequena, eu, como todos os pais, às vezes ficava um tempão olhando para ela, imaginando o que aquela menininha ia querer ser quando crescesse. De vez em quando até me dava vontade de fazer a clássica pergunta "-E aí, o que você vai ser quando crescer?", mas eu nunca perguntei, até mesmo porque eu mesmo, até hoje, não me resolvi direito a respeito do meu próprio futuro. Mas quando eu ficava ali, olhando para ela, ainda no berço ou já dando os primeiros passos, não conseguia deixar de imaginá-la nas mais diversas profissões. De vez em quando, eu imaginava ela uma arquiteta. É, uma arquiteta seria uma boa. Já imaginou? Minha filha construindo lugares onde as pessoas iriam viver, se amar, se confraternizar. Mas, de vez em quando, olhando algumas construções que já foram feitas, como a do Congresso Nacional, em Brasília, achava que minha filha poderia se frustrar bastante com o uso que poderiam fazer de seus belos projetos. E aí eu imaginava minha filhota sendo uma médica. Porque não? A medicina é uma profissão das mais honradas. Dessas que os pais da gente, e os pais dos pais da gente, sempre sonharam para seus filhos escolherem. No entanto, a medicina é uma profissão ingrata. Qualquer vitória que você obtenha, seja ela um nariz um pouco mais arrebitado, ou até mesmo um coração recauchutado, uma hora ou outra você acabará derrotado, e sua obra, ou seu paciente, repousará eternamente sete palmos abaixo da terra. E também não vou mentir aqui para vocês que, volta e meia, também não sonhava com a possibilidade da minha filha seguir a carreira do pai. Já pensou, uma filha escritora? Mas, do jeito que as coisas andam, com essa molecada cada dia lendo menos e pior, não sei também se seria lá uma grande opção para ela.
E foi assim até que, outro dia desses, ela começou a fazer um curso de palhaço. Todo dia ela chegava em casa com uma novidade. Um dia, um número novo de malabarismo. No outro, mágica. Depois, festival de piadas. Dia desses mesmo, ela foi com um grupo para o Hospital do Câncer de Barretos, brincar de “Doutores da Alegria” com a molecada que está lá, internada. Disse que as crianças adoraram. E até os pais delas se animaram um pouco com aquela palhaçada toda.
Fala a verdade. É para ter orgulho dessa filha ou não é?
Tudo bem. Eu até entendo essa euforia toda por causa desse negócio do Brasil sediar as Olimpíadas de 2016. Aliás, o Brasil não. As Olimpíadas, diferente da Copa do Mundo de Futebol, são sediadas numa cidade, não num país. E as minhas encanações já começam por aí. Por quê? Se numa Olimpíada eles juntam absolutamente todos os tipos de jogos conhecidos e a Copa do Mundo de Futebol é um campeonato de apenas um único esporte, porque diabos as Olimpíadas acontecem só numa cidade, e a Copa do Mundo num país inteiro? Não devia ser o contrário? Mas tudo bem. Isso é lá com os dirigentes esportivos, que entendem mais desses negócios que eu, então eles devem ter lá os seus motivos. Agora, o que tem me atormentado de verdade é esse friozinho na barriga que me dá toda hora que eu ouço alguém falar que em 2016 vai estar o mundo todo de olho no Brasil. Porque, convenhamos. Você acha que em pouco mais de seis anos, o Brasil vai mudar muita coisa? Você não acha que tem um bando de gente que já deve ter visto aí nesse negócio de Olimpíada uma baita de uma oportunidade de fazer seu pé de meia? Afinal, o orçamento previsto para os jogos, atualmente, já é de R$ 25,9 bilhões, com tendência a aumentar bastante conforme os cargos burocráticos comecem a ser distribuídos entre a parentaiada dos deputados e senadores. E isso sem contar o superfaturamento nas obras, as compras irregulares e os desvios de verbas. Bem, uma coisa não se pode negar sobre as Olimpíadas de 2016. Nunca houve, neste país, uma festa como essa!
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