no próximo bloco

Tudo bem. Eu também não sei direito qual seria minha reação diante de uma tragédia como essa, do Airbus que caiu aí, no mar. Mas eu fico pensando nessas famílias acompanhando desesperadamente o resgate dos corpos pela Marinha. As famílias são levadas para o Recife e para São Paulo e para Fernando de Noronha, tudo acompanhado de perto por jornalistas falando baixinho suas reportagens, mostrando lá atrás aquela fila de gente chorando, entrando ou saindo de algum ônibus ou do IML.  Sei lá. Pra mim, isso parece um verdadeiro show de horrores, patrocinado, especialmente, pela imprensa. Como praticamente tudo hoje em dia, vende-se a tragédia como uma mercadoria. E o pior: uma mercadoria com prazo de validade praticamente esgotado. Precisa-se falar da tragédia enquanto está dando audiência. Enquanto ainda vende revistas e jornais. Ou enquanto o Brasil não for campeão da Copa das Confederações. É, porque, eu te falo uma coisa. Se tem uma coisa que me dá arrepios na espinha é quando, no Jornal Nacional, a Fátima Bernardes está ali, com aquele olhar tristonho, falando em sussurros sobre a última tragédia mundial, e, de repente, como num passe de mágica, ela se vira para outra câmera, sorri e diz que a seleção de Dunga ganhou de cinco de não sei quem, tudo isso para você, “no próximo bloco do Jornal Nacional”. Deus do céu! Se o Ronaldão e o Dunga gostam de aparecer para o grande público, vá lá, tem gosto para tudo. Mas colocar no mesmo nível de importância, e de maneira tão absolutamente calculada, famílias chorando suas perdas e a droga de um jogo de futebol, isso é mesmo a cara do homem moderno. Ou somos tratados como consumidores, ou como mercadorias.

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