Esse mosquito da Dengue nos coloca no nosso devido lugar em relação ao planeta, ao universo e tudo o mais. Porque esse mosquitinho é um pesadelo, não é não? Um mosquito sempre foi uma coisa meio banal, que a gente espantava com uma simples abanada de mão ou uma sopradinha. Mas esse mosquito da Dengue é um verdadeiro inferno. Para você ver só uma coisa, entre 2008 e 2009, foram mais de um milhão de casos de dengue no Brasil e mais de seiscentas mortes. E há quanto tempo que a gente não ouve essas campanhas aí, de combate à Dengue? Porque isso não se pode negar. Até os governos vem tentando fazer a parte deles. Além das campanhas, pelo menos aqui na minha casa, todo ano passam uns agentes sanitários, dão uma olhada no quintal, e depois de uma semana ainda passa aquele caminhão soltando fumaça pelas ruas. E adianta alguma coisa? Pois não adianta. Todo ano, o tal mosquito da Dengue surge sabe-se lá de onde e recomeça a procriar, como se ninguém tivesse feito coisa nenhuma. É por isso que eu falo. O ser humano é muito metido a besta. Acha que está com a bola toda mas, com todos seus iphones, notebooks e aviões supersônicos, não dá conta de exterminar nem um bichinho desse tamanhinho, ó. No fundo, no fundo, nossa espécie é um verdadeiro fiasco.
A coisa toda começou com aquelas enchentes em São Paulo. O rio Tietê transbordou e São Paulo praticamente parou. Foi aquele deus nos acuda de pessoas que não conseguiam ir trabalhar, pessoas que não conseguiam voltar para casa e aquele monte de casa inundada. Tem, inclusive, um bairro que até hoje ainda não secou, e as pessoas para saírem de casa têm que andar num lamaçal. Aí, o negócio começou a acontecer numas cidades do interior também. Não sei se você lembra, mas há alguns meses já teve aquele cara que salvou uma moça de morrer afogada bem em frente a um McDonalds de São José do Rio Preto. E agora, em São Luiz do Paraitinga, teve uma enchente que quase varreu a cidade do mapa. Diversas casas e casarões, parte deles tombados pelo Patrimônio Histórico, correm o risco de desabar a qualquer momento. E para completar, ainda teve aquela tragédia lá em Angra dos Reis. Até os pescadores que moram por lá desde que nasceram disseram que nunca tinham visto nada parecido. Quer dizer, você tem de concordar que tem alguma coisa muito errada aí nessa história. Não pode ser só uma coincidência tanta chuva e tanta enchente. Eu não sei de você, mas, na dúvida, eu vou começar a construir uma arca. Quem sabe até faça uma bem grande, para caber uns bichos, sei lá...
Eu não sei se seu tô ficando velho ou o que é, mas as férias de hoje já não são mais como as de antigamente. A coisa já começa a pegar pela duração. No meu tempo de criança, as férias duravam aí, pelo menos uns quatro meses. E isso naquele tempo que eu tinha energia de sobra. Hoje, quando a minha energia já não está lá essas coisas, e as baterias não recarregam mais com a velocidade de antes, as férias encurtaram para meros quinze dias. É, quinze dias. Você pode vir com esse papo de que a lei diz que as férias são de trinta dias, mas então pergunta por aí, para quem você quiser, quantos dias eles tiram de férias. Pode ser rico, pobre, patrão ou empregado. Todo mundo só tira quinze dias, e ainda por cima coincidindo com o Natal e o Ano-Novo, o que faz as férias durarem menos ainda. Tudo bem. Você também pode argumentar que dez dias já é tempo mais do que suficiente para dar uma boa descansada. E é aí que está o outro problema. Quem é que consegue descansar nas férias? É um tal de fazer compras de última hora, arrumar mais uns panetones, uma lembrancinha para a tia Concheta e viajar daqui pra lá e de lá pra cá que eu vou te contar... Mas tudo bem. Tal como a morte e o salpicão da minha tia Concheta na ceia do reveillon, as férias são mesmo inevitáveis. Resta-nos apenas contar os dias para isso acabar o mais rápido e menos dolorosamente possível.
Quando a gente reclama dessa chuva que não pára de cair, os mais velhos sempre fazem aquela cara de desaprovação e dizem que "chuva é sinônimo de vida", que a gente tem de agradecer por estar chovendo e tudo o mais. E quando eu digo "mais velhos", estou me incluindo aí, é claro. No meu tempo de moleque, aliás, toda vez que chegava a época das chuvas, era quase uma festa. As professoras pediam para a gente desenhar nos cadernos de "Educação Artística" as flores e as plantações que estavam nascendo... Enfim, a chuva sempre foi uma espécie de marco divisório entre uma época de muita necessidade para um tempo de fartura e felicidade. Mas, como os mais velhos também dizem, as coisas mudam. Hoje, antes de sair de casa, não tem um que não dê uma olhadinha para o céu e, em algumas cidades, a simples presença de uma nuvem um pouco mais negra já causa arrepios. Em São Paulo, por exemplo, de acordo com a Defesa Civil, pelo menos 400 famílias tiveram que deixar suas casas por causa das últimas chuvas e algumas até morreram. E, tudo isso, por quê? É porque alguma represa se rompeu? Não. É porque o sistema de drenagem foi mal planejado? Também não. Essas enxurradas acontecem, simplesmente, por causa do lixo que a gente joga na rua e que acaba entupindo os bueiros. Todo ano, um monte de gente avisa que, se a gente não parar de jogar lixo na rua, vai acontecer isso, e a gente continua jogando cigarro e saquinhos de salgadinhos nas calçadas, como se não fosse com a gente. Para mim, a humanidade já está começando a parecer um bando de Lemingues. E, para quem não sabe, Lemingues são aqueles pequenos roedores que, quando migram em bando, muitas vezes se suicidam saltando abaixo de penhascos.
A maior novidade dessa história do novo mensalão lá de Brasília nem foi aquela dinheirama toda. Tudo bem que as imagens daqueles caras enfiando notas de cem no bolso das calças, das camisas e até nas meias foram de arrasar. Nós, pobres mortais, sempre ficamos mais ou menos abobalhados quando nos deparamos com um maço de notas de cem reais. Eu, por exemplo, sou tão mal acostumado com notas de cem que, outro dia desses, ao receber um pagamento, confundi uma nota de cem com uma de dois reais, que tem mais ou menos a mesma cor. Se não fosse a honestidade do dono da padaria, eu teria pago quatrocentos reais num maço de cigarro, e só ia acabar percebendo uns dois dias depois, quando fosse fazer o depósito. Mas, vamos ser sinceros. Com essas cenas de políticos recebendo um monte de dinheiro nós já estamos mais ou menos acostumados. Uma vez apareceu um com dólares até na cueca, lembra? A novidade de verdade desse novo escândalo ficou por canta daquela cena de alguns deles rezando, agradecendo a Deus pela benção recebida, sendo que a “benção”, no caso, era um baita maço de notas de cem reais, devidamente embolsadas por cada um deles.Só me faltava essa agora. Rezar agradecendo a propina. Mas é muita cara de pau, não é não?
Você pode até achar que o grande problema do mundo é a fome. Que é uma vergonha o número de crianças morrendo de fome pelo mundo afora, etc e tal. Pois você está REDONDAMENTE enganado. O grande problema do mundo, atualmente, é a obesidade. Nos Estados Unidos, por exemplo, 55% dos adultos são imensamente gordos, que é como se chamava os obesos antigamente. E, entre as crianças, uma em cada cinco também está bem acima do peso. E se você pensa que isso só acontece nos Estados Unidos e nesses países mais ricos, também errou. Nauru, uma ilhinha perdida no meio do Oceano Pacífico, é o lugar que tem mais gordos no mundo, algo em torno de 80% da população. E o Brasil não fica muito atrás. Apesar de tantos problemas, 40% dos brasileiros e brasileiras já não conseguem ver direito o que está acontecendo com seus joelhos. E a questão nem é ficar bonitinho, com o corpitcho de um Rodrigo Santoro ou de uma Gisele Bündchen. Não. Obesidade é muito mais do que um problema com a aparência. É um perigo para a saúde. Milhares de mortes relacionadas à obesidade acontecem todos os anos, incluindo diabetes, doenças no coração, pressão alta, infarto e até câncer. A coisa está tão feia que a Organização Mundial da Saúde já considera a obesidade um dos dez principais problemas de saúde pública do mundo, classificando-a como epidemia. É realmente inacreditável, não é? A gente passou a vida inteira com pena daquelas criancinhas africanas, com as costelas à mostra, procurando comida no lixo. E agora a gente tem que ficar com dó... dos americanos?
Quando eu falava que a vida era um inferno, não era exatamente isso que eu estava querendo dizer. Mas serve. Meu deus do céu. Que calor que anda fazendo. Só para você ver uma coisa, outro dia desses eu fui fazer uma mamadeira pro meu neto e o leite acabou fervendo. Então, eu coloquei a leiteira em cima da pia para ele esfriar um pouco. De vez em quando, eu ia lá, pegava uma colher, colocava um pouquinho de leite no meu pulso para ver se já estava no ponto. E nada. Passou mais ou menos umas duas horas, e eu desisti. A impressão que eu tinha era que o leite ali, deixado à temperatura ambiente, estava mais era esquentando. Acabei por enfiar a caneca no freezer e, enquanto esperava, cogitei seriamente em pegar meu travesseiro e entrar ali dentro também. Mas, pior que essa quentura toda, é ter de aguentar todo mundo que entra no escritório reclamando do calor. Não sei se é falta de assunto, ou o que é. Mas não tem um que não entre por aquela maldita porta e não comece a conversa com um “- Mas que calor está fazendo lá fora!”. Outro dia desses eu não aguentei. Foi uma vendedora entrar e reclamar do calor que eu respondi assim, de bate pronto “- Ué, aqui a gente não está sentindo não, será que não é você que está na menopausa?”. E esse é mais um dos problemas do calor. A gente fica extremamente irritado. Não sei se existe alguma pesquisa a respeito, mas eu aposto que no verão o número de agressões deve aumentar pra caramba. Tanto é que, quando alguém pensou num lugar onde todos os pecados da humanidade seriam devidamente penitenciados, imaginou um lugar com lava de vulcão e muito óleo fervente. Um lugar extremamente quente. Um verdadeiro inferno.
Eu andei pensando, e imaginei algumas hipóteses sobre o apagão dessa semana. A hipótese número um é que foram OS ESTADOS UNIDOS. Os Estados Unidos, como é de conhecimento de todo o planeta, estão vivendo uma baita crise financeira e de identidade. Seu poder sobre o mundo está diminuindo quase tão rapidamente quanto o extrato bancário dos seus contribuintes. E, para ajudar, os Estados Unidos perderam a disputa pelas Olimpíadas para o… Brasil! Existe, então, a possibilidade de que seus aliados tenham espalhado bombas em alguns pontos do sistema elétrico brasileiro para divulgar pelo tweeter que o Brasil não tem condições técnicas para uma competição desse naipe.Hipótese número dois. FOI O JOSÉ SERRA Tudo bem. O Serra está aparecendo em primeiro lugar com folga em todas as pesquisas sobre a intenção de voto para presidente. Mas ele é um homem esquisito. Ele fez aquela lei anti-fumo, passando por cima da constituição e dos nossos direitos individuais. Quer dizer, o homem acha que pode salvar o país. Então, existe a hipótese de que seus aliados tenham espalhado bombas em alguns pontos do sistema elétrico brasileiro para dizer que o governo Lula não deu a atenção necessária para nosso sistema elétrico. Aliás, eu já até ouvi umas conversas sobre isso. E a hipótese número três é a seguinte. Dizem que, no dia do apagão, quando os funcionários de Itaipu estavam saindo, gritaram para o estagiário lá dentro: – Quando sair, apaga a luz!
Nada contra a evolução e a modernização das coisas. Muito pelo contrário. Acho que a modernização fez o mundo ficar bem melhor do que era. Eu fico tentando imaginar, por exemplo, como era o mundo antes da invenção da geladeira. Antes da geladeira, onde é que eles guardavam a compra do mês? E a carne que sobrou do almoço, o que é que eles faziam com ela? E a cerveja, meu deus do céu, e a cerveja? No entanto, a geladeira foi inventada há pouco mais de 150 anos e, hoje em dia, ninguém mais sabe viver sem ela. Só que tem umas modernidades que, ao mesmo tempo em que resolveram um problema, arrumaram outro. Veja só aí o problema de uma coisa simples como a água. Quando eu nasci, na casa dos meus pais tinha daqueles filtros de barro, que a gente enchia de água da torneira mesmo, e ela saía de lá já filtrada e sempre fresquinha. A água simplesmente não acabava. Mas hoje, com esse negócio da gente comprar água nesses galões azuis, a coisa se tornou um problema. Nesse último feriadão, por exemplo, com aquele calor todo, a água em casa acabou e simplesmente não tinha uma droga de lugar aberto na cidade inteira para eu comprar um galão. Tive que comprar umas dez garrafas de água mineral para abastecer a família, o que, se não ficou uma fortuna, já daria aí para comprar pelo menos uma boa pizza. Sei lá. Acho que até a evolução tem limites, viu.
Vai chegar uma hora que a coisa vai virar uma festa só. Veja você aí o caso do Natal. O Natal, para quem ainda se lembra, acontece no dia vinte e cinco de dezembro. Repare bem. Eu disse VINTE E CINCO DE DEZEMBRO. Nem mais, nem menos. Tudo bem. Quando eu nasci, já era tradição que a festa de Natal acontecesse no dia vinte e quatro. Mas, até aí, era a véspera da festa mesmo, não ia fazer muita diferença. Acontece que, de uns tempos para cá, o povo está exagerando. A gente começa a ver enfeite de Natal cada ano mais cedo. Eu mesmo já encontrei aí, na cidade, umas duas ou três casas já todas enfeitadas com aquelas lâmpadazinhas. E as lojas também, já estão partindo para a ofensiva, cobrindo suas vitrines com árvores e faixas desejando “boas festas”. Mas, meu deus do céu. Não é muito cedo não? Nós nem chegamos ao final de OUTUBRO, gente! Mas isso não é nada quando a gente pára para pensar no Carnaval. O Carnaval, como todo mundo também deve se lembrar, dura apenas quatro dias. Pode perguntar aí, para qualquer criança de dez anos. O Carnaval acontece no sábado, no domingo, na segunda, na terça. E pronto, acabou. Mas aí alguém resolveu que na sexta-feira à noite ninguém tinha nada para fazer, então porque não começar a farra logo de uma vez? E o Carnaval passou a ter cinco dias. Depois, como a coisa começou a dar certo para o turismo, em algumas cidades eles passaram a embalar a festa pela semana seguinte, enforcando a quarta-feira de cinzas, a quinta, a sexta e entrando pelo sábado e o domingo. Então uma festa que, em suas origens, tinha só quatro dias, passou a ter dez, e isso sem contar o sucesso desses Carnavais fora de época, como o Carnavotu. Eu te falo uma coisa. Eu já ando até com saudades do tempo em que eu trabalhava... É isso aí gente. Bom Carnavotu pra todo mundo e, aos sobreviventes, até sábado que vem!
Sei lá. Eu acho bastante estranho que, bem agora, menos de um mês depois da Olimpíada ter sido dada assim, de presente para o Brasil e para o Lula fazer campanha eleitoral, os traficantes das favelas do Rio de Janeiro resolvam se revoltar desse jeito.Saiu até no New York Times, gente... Não que não merecesse. A coisa foi mesmo feia. Parecia um filme do Sylvester Stallone. Caiu até um helicóptero matando todos os ocupantes. Foi um tal de gente correndo dos tiros de metralhadoras. Comerciantes fechando as portas. Estudantes sendo trancados nas escolas. Granadas. Balas perdidas. Se não me engano, tinha até mísseis na jogada. Um verdadeiro videogame. Aliás, foi lançado, ainda outro dia desses, um videogame violentíssimo chamado “Modern Warfare 2” que vai retratar exatamente isso. Ele terá uma favela carioca como parte do cenário do jogo, e o jogador controlará com seus joysticks alguns atiradores de elite de um exército de mercenários assassinos. Com direito, inclusive, a pilotar helicópteros e disparar mísseis. Agora, vem cá. Não é muito esquisito o lançamento desse jogo acontecer exatamente nesse momento tão delicado para o Brasil? Eu nunca fui muito chegado nessas teorias de conspiração, embora não descarte totalmente a possibilidade de ter o corpo de algum ET mergulhado em formol, escondido num galpão do exército americano, ou que o Presidente Kennedy tenha sido morto por algum guarda-costas do Nixon. Mas que parece que tem alguém muito poderoso por aí tentando secar a Olimpíada de 2016, isso parece.
Depois de ter mostrado um baita de um cartão vermelho para o José Sarney, na época em que ainda se discutia se o Sarney devia ou não continuar senador depois de arrumar emprego lá para uma dúzia de parentes, agora o Eduardo Suplicy desfilou de cuecas vermelhas pelos corredores do senado. Tudo bem. Até aí, ninguém tem nada com a cor das cuecas do Suplicy. Mas acontece que Suplicy resolveu usar as cuecas por cima das calças. É, isso mesmo. Por cima das calças. A Sabrina Sato, do “Pânico”, disse para o Suplicy que ele podia ser considerado um super-herói por ser autor do projeto que deu origem à lei da renda básica. E se ele não topava colocar uma sunga igual à do Super-Homem. E o Suplicy topou. Agora, todo mundo está caindo de pau em cima dele, dizendo que ele quebrou o decoro parlamentar, e já tem um monte de senadores querendo sua cabeça. Olha, eu não sei de vocês. Mas eu estou ao lado do Suplicy e não abro. Para começar, se a Sabrina Sato me pedisse para desfilar com uma camisa do Palmeiras na frente da Gaviões da Fiel, eu desfilava sem nem pestanejar. Por outro lado, quanto ao lance do decoro parlamentar, oras, vamos ser sinceros. O que é que esse bando de político entende de decoro parlamentar? Eles são é muito cara de pau. O Suplicy, pelo menos, sempre esteve envolvido na luta pelos direitos humanos, pela renda mínima. Por mim, o Suplicy pode sai por aí de cueca samba-canção, de terno ou até pelado. Não tem ninguém naquele senado que tenha altura suficiente para roçar os seus calcanhares.
Acho que nunca tive tanto orgulho da minha filha quanto estou tendo agora. Minha filha resolveu ser palhaça. É, palhaça. Ou "clown", como eles chamam os palhaços hoje em dia.
Quando minha filha era pequena, eu, como todos os pais, às vezes ficava um tempão olhando para ela, imaginando o que aquela menininha ia querer ser quando crescesse. De vez em quando até me dava vontade de fazer a clássica pergunta "-E aí, o que você vai ser quando crescer?", mas eu nunca perguntei, até mesmo porque eu mesmo, até hoje, não me resolvi direito a respeito do meu próprio futuro. Mas quando eu ficava ali, olhando para ela, ainda no berço ou já dando os primeiros passos, não conseguia deixar de imaginá-la nas mais diversas profissões. De vez em quando, eu imaginava ela uma arquiteta. É, uma arquiteta seria uma boa. Já imaginou? Minha filha construindo lugares onde as pessoas iriam viver, se amar, se confraternizar. Mas, de vez em quando, olhando algumas construções que já foram feitas, como a do Congresso Nacional, em Brasília, achava que minha filha poderia se frustrar bastante com o uso que poderiam fazer de seus belos projetos. E aí eu imaginava minha filhota sendo uma médica. Porque não? A medicina é uma profissão das mais honradas. Dessas que os pais da gente, e os pais dos pais da gente, sempre sonharam para seus filhos escolherem. No entanto, a medicina é uma profissão ingrata. Qualquer vitória que você obtenha, seja ela um nariz um pouco mais arrebitado, ou até mesmo um coração recauchutado, uma hora ou outra você acabará derrotado, e sua obra, ou seu paciente, repousará eternamente sete palmos abaixo da terra. E também não vou mentir aqui para vocês que, volta e meia, também não sonhava com a possibilidade da minha filha seguir a carreira do pai. Já pensou, uma filha escritora? Mas, do jeito que as coisas andam, com essa molecada cada dia lendo menos e pior, não sei também se seria lá uma grande opção para ela.
E foi assim até que, outro dia desses, ela começou a fazer um curso de palhaço. Todo dia ela chegava em casa com uma novidade. Um dia, um número novo de malabarismo. No outro, mágica. Depois, festival de piadas. Dia desses mesmo, ela foi com um grupo para o Hospital do Câncer de Barretos, brincar de “Doutores da Alegria” com a molecada que está lá, internada. Disse que as crianças adoraram. E até os pais delas se animaram um pouco com aquela palhaçada toda.
Fala a verdade. É para ter orgulho dessa filha ou não é?
Tudo bem. Eu até entendo essa euforia toda por causa desse negócio do Brasil sediar as Olimpíadas de 2016. Aliás, o Brasil não. As Olimpíadas, diferente da Copa do Mundo de Futebol, são sediadas numa cidade, não num país. E as minhas encanações já começam por aí. Por quê? Se numa Olimpíada eles juntam absolutamente todos os tipos de jogos conhecidos e a Copa do Mundo de Futebol é um campeonato de apenas um único esporte, porque diabos as Olimpíadas acontecem só numa cidade, e a Copa do Mundo num país inteiro? Não devia ser o contrário? Mas tudo bem. Isso é lá com os dirigentes esportivos, que entendem mais desses negócios que eu, então eles devem ter lá os seus motivos. Agora, o que tem me atormentado de verdade é esse friozinho na barriga que me dá toda hora que eu ouço alguém falar que em 2016 vai estar o mundo todo de olho no Brasil. Porque, convenhamos. Você acha que em pouco mais de seis anos, o Brasil vai mudar muita coisa? Você não acha que tem um bando de gente que já deve ter visto aí nesse negócio de Olimpíada uma baita de uma oportunidade de fazer seu pé de meia? Afinal, o orçamento previsto para os jogos, atualmente, já é de R$ 25,9 bilhões, com tendência a aumentar bastante conforme os cargos burocráticos comecem a ser distribuídos entre a parentaiada dos deputados e senadores. E isso sem contar o superfaturamento nas obras, as compras irregulares e os desvios de verbas. Bem, uma coisa não se pode negar sobre as Olimpíadas de 2016. Nunca houve, neste país, uma festa como essa!
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