Agora. Esse povo está ou não está se metendo em coisa para a qual não foi chamado? Depois de proibirem o cigarro, depois de proibirem os humoristas de fazer piadinhas de candidatos, depois de proibirem os pais de darem umas palmadinhas nos bumbuns dos filhos, agora eles proibiram o torcedor de falar palavrões dentro dos estádios! É, isso mesmo. A gente não pode mais xingar o juiz durante o jogo, e não há mais nada a se fazer. As mudanças no Estatuto do Torcedor já foram sancionadas e estão valendo desde a última quarta-feira. E a lei é bem clara. Entre outras coisas, ela proíbe XINGAMENTOS DISCRIMINATÓRIOS, sob a pena de expulsão imediata do estádio e a possibilidade de pegar de 1 a 2 anos de prisão. Eu fico pensando onde é que esses politicozinhos de meia pataca pretendem chegar. Porque agora eles passaram do ponto. E dizer que, lá pelos anos 1960, já tinha um monte de gente nas ruas lutando pela liberação da maconha, pelo casamento entre parceiros do mesmo sexo e pela descriminalização do aborto. Como é que dá para acreditar que, depois de 50 anos, iam proibir a gente de xingar um juiz de futebol, e ninguém ia fazer nada a respeito? Ok, ok. Você pode até discordar, ou achar que eu estou exagerando. Mas com uma coisa você tem de concordar. Esse mundo está ficando de uma chatice sem tamanho. Já imaginou ir a um estádio de futebol, e não poder xingar a mãe do juiz? Mas que coisa mais sem graça, sô...
Agora tem essa lei que está tramitando no Congresso, que proíbe os pais de darem umas palmadas nos filhos. Ou beliscões. Tudo bem com os beliscões. Os beliscões são coisa de pervertido mesmo. Ninguém normal dá um beliscão numa criança. Um beliscão é uma coisa pensada, planejada. O que não é o caso das palmadas. Acho que o uso das palmadas para educar os filhos surgiu desde que o primeiro ser humano surgiu na Terra. Talvez, até antes. Porque eu já vi, num desses programas da TV Cultura, tipos “A Natureza Selvagem”, que mesmo as fêmeas dos chimpanzés dão uns chega pra lá quando seus filhotes se excedem. É claro que elas não pretendem, com isso, que seus filhotes sofram, que fiquem traumatizados, ou coisa parecida. As mamães chimpanzés querem, apenas, que seus filhotes parem de fazer estripulias e que NÃO caiam do galho da árvore e se espatifem lá embaixo. Tudo bem. Eu entendo quem propôs a tal lei das palmadas. Tem muita gente que se excede por aí. Uns pais que fazem coisas com os filhos que a gente nem acredita que possa ser verdade. Mas, se você colocar ali, na ponta do lápis, vai perceber que não se trata nem de 1% da população mundial. Então, precisa ficar bem claro uma coisa. Antes que a polícia saia por aí, prendendo pais a torto e a direito, alguém precisa dizer que, na grande maioria das vezes, quando a gente dá uma palmada no nosso filho, estamos apenas tentando fazer com que ele não caia da árvore. E se espatife lá embaixo.
DEPOIMENTO Laerte comenta a obra e a influência de Harvey Pekar, autor de "American Splendor", morto na última segunda
Pekar me fez tentar uma linha narrativa
LAERTE
ESPECIAL PARA A FOLHA
Esqueci quem me falou sobre o Harvey Pekar e me passou uns números da "American Splendor". Acho que foi meu amigo Dan Berman, mas posso estar enganado. Ou talvez o David, que era de Nova Iorque.
Dan me apresentou o trabalho de outro delicioso autor americano, Bill Griffith -de "Zippy, the Pinhead".
De todo modo, foi em 1987. Fiquei maravilhado com o modo como Pekar fazia histórias "sem história" -quadrinhos sem ação aparente, crônica do cotidiano em Cleveland, roteirizados por ele e desenhados por seus amigos. Um dos amigos, claro, era o Robert Crumb.
Nessa época eu participava da revista "CIRCO". O trabalho do Pekar me fez tentar uma linha narrativa daquele tipo, onde nada de especial acontecesse. Fiz Fadas e Bruxas, em maio de 1988.
Um pouco depois, tive minha própria revista, a "Piratas do Tietê", onde eu desejava publicar trabalhos de autores estrangeiros que me falassem ao coração.
Tentei entrar em contato com ele pelos endereços que apareciam nos créditos da "American Splendor". Nada de resposta. Tentei um endereço que aparecia desenhado num quadrinho. Nada.
Então traduzi quatro histórias dele e publiquei no número 11 da "Piratas", em 1991. Pensei em mandar uns exemplares, mas achei que podia soar como provocação.
Em abril de 1992, na "Piratas" nº 14, pirateei outro grande autor americano, Richard McGuire -ainda vivo. Faz lindas animações.
Numa das histórias que mais gosto, Pekar discorre sobre o seu nome, revelando a descoberta de que existem vários outros Harvey Pekar!
Anos depois, inclusive com o filme "American Splendor", ele se tornou mais conhecido e eu passei a ser o primeiro a ter publicado Pekar no Brasil.
LAERTE é quadrinista, autor das tiras "Piratas do Tietê" e "Laertevisão"
O que a gente chama hoje em dia de “tomar conta” de uma criança não passa, essencialmente, de dizer à criança o que ela NÃO pode fazer. A gente fica andando atrás da criança dizendo “não sobe aí que pode cair e fazer dodói”. ”Não mexe no computador do vovô”. “Não assiste televisão até tarde”. A vida de uma criança deve ser um inferno e não é à toa que o sonho dela é ficar adulta. Mas mal sabem as crianças que, quando adultas, as coisas tendem a piorar. Talvez por termos nos traumatizado na infância com aquela enormidade de NÃOS que ouvimos dia e noite, nós, os adultos, não paramos de criar todo tipo de proibições para nós mesmos que, na maioria das vezes, acabam fugindo totalmente ao nosso controle.Vejam vocês a enrascada que não se meteram esses caras que resolveram proibir as festas open-bar em Votuporanga. Usando como argumento a saúde de nossa juventude, eles conseguiram inviabilizar nosso Carnaval.Tudo bem, os caras podem até estar muito bem intencionados e tudo o mais, mas acontece que, para resolver o problema da bebida entre os jovens, certamente não basta uma lei municipal. Talvez nem mesmo uma nacional. O máximo que uma lei proibindo festas open-bar em Votuporanga vai conseguir é que essas festas aconteçam em outras cidades, ou que os garotos já cheguem às festas devidamente bêbados. De uma maneira ou outra, não devia ser esse o intento dos autores do projeto de lei que, antes de saírem propondo proibições a torto e a direito, deviam se informar um pouco mais sobre a tentativa de implantação da “Lei Seca” nos Estados Unidos e sobre um senhor chamado Al Capone, que sabia muito bem dessa irresistível atração que as coisas proibidas exercem sobre o ser humano.
Esse negócio de Copa do Mundo tem hora que extrapola sua devida importância, e é tratada como se nossa vida dependensse dela para continuar mais ou menos do mesmo jeito de sempre. Outro dia desses, por exemplo, na véspera do jogo do Brasil contra o Chile, a agência de propaganda do Grupo Pão de Açúcar achou que teve uma ótima idéia para folgar um pouco mais cedo e enviou para o jornal “Folha de S.Paulo” dois anúncios. Um, festejando a vitória do Brasil e a sua classificação para a próxima fase. E, o outro, lamentando a derrota e se despedindo da Copa. Quando o jogo acabasse, era só o responsável colocar o anúncio certo no jornal, mandar imprimir e estamos conversados. Bem, e não é que saiu tudo errado? Sabe-se lá por que cargas d’água, a seleção brasileira ganhou do Chile, se classificou, o Brasil inteiro fez festa, mas o anúncio que saiu na “Folha” foi o outro, lamentando a derrota, dizendo que o Brasil saía da Copa do Mundo, mas “não dos nossos corações”. Foi um deus nos acuda. Tanto que o próprio presidente do Grupo Pão de Açúcar, o sr. Abílio Diniz, em nome de suas empresas, escreveu indignado no twitter que "NÃO COMPARTILHAVA COM A IMPUNIDADE E QUE TOMARIA AS PROVIDÊNCIAS NECESSÁRIAS PARA RESPONSABILIZAR OS CULPADOS". Não é mesmo uma frase genial? Quem dera se ele falasse algo parecido toda vez que um brasileiro desmaiasse numa fila do SUS, ou que um aposentado tivesse que esperar mais de uma hora para ser atendido num banco.
Não é que eu seja do contra, mas eu sou totalmente a favor do Dunga. Se é que me faço entender. Primeiro é que, falem o que falar, mas o Brasil está aí, classificado. Pode parecer pouco, mas a Itália e a França não estão. Mas não é só isso não. Em praticamente tudo o que o Dunga fez, eu teria feito mais ou menos a mesma coisa. O lance de gostar de fazer treinos fechados, por exemplo. A imprensa vive falando que o Dunga é contra a liberdade de imprensa porque ele não deixa os caras filmarem os jogadores e tudo o mais. Pois se eu estivesse lá, também não deixava. Você, por exemplo, fica à vontade quando alguém mira uma câmera para sua cara? Pois eu não fico. Agora mesmo,mesmo depois desses anos todos fazendo esse programinha, as minhas mão tremem assim que a luzinha da câmera acende. E é só alguém levantar uma máquina fotográfica que imediatamente eu não sei onde colocar as mãos, não sei para onde olho, tropeço. Um sufoco. E como é que um jogador de futebol pode treinar com aquele monte de câmera mirando nele? Não dá, oras. Mas, o melhor do Dunga foi essa briga com a Rede Globo. Nessa, o Dunga se superou. O Dunga fez o que todo mundo da minha geração queria fazer e não deixaram. Ele xingou a Rede Globo, e na própria Rede Globo! Fala a verdade. O cara é ou não é demais?
Não sei o que é. Mas, durante a Copa do Mundo, todo mundo simplesmente enlouquece. Até umas pessoas certinhas, que a gente nunca ouviu falar nem um palavrão antes, de repente se transformam em fanáticos desbocados. Outro dia desses mesmo eu vi uma respeitável senhora, sempre muito discreta e elegante, dando tapas e socos raivosamente em sua televisão, gritando a quem quisesse ouvir:
- Essa televisão do inferno, bem que eu falei para aquele pão duro do meu marido não comprar essa porcaria do Paraguai, que se fosse um país que prestasse pra alguma coisa tinha é ganhado daquele timinho da Itália!
Quer dizer, quando a questão envolve futebol, parece que as pessoas, mesmo as mais recatadas, perdem completamente as estribeiras. E isso sem contar o que elas fazem com os carros. A gente vê aqueles caras que nunca na vida deixaram nem a esposa dirigir o automóvel da família, que passam o domingo lavando e lustrando a lataria do carango, que fazem todas as crianças limparem os pés antes de entrarem e ainda avisam que ali dentro ninguém come nada que vai encher os bancos de farelo, e aí esse mesmo cara pega e pinta os vidros e a lataria de verde e amarelo, enfia uma bandeira na antena e enche o carro de amigos bêbados comendo chips e derramando cerveja pra tudo que é lado. Sei lá. Eu acho melhor o brasileiro começar a gostar de um outro esporte qualquer. O golfe, o handebol. Quem sabe até o ping-pong. Porque esse negócio de futebol, pra mim, é coisa do demo.
Sabe como é chama essa corneta que os torcedores sul-africanos tocam nos jogos? Pois elas são chamadas de "vuvuzelas". Mas, a partir dessa semana, provavelmente eu as chamarei de um monte de outras coisas também. Porque, se as outras Copas do Mundo já foram um inferno em termos de poluição visual, essa Copa promete encher de lixo também os nossos tímpanos. Além dos cartazes, outdoors, faixas, bandeirolas e propagandas de TV cheias de garotas pintadas de verde-amarelo, ainda vamos ter de aguentar os gritos histéricos do Galvão Bueno e aquelas malditas cornetas fazendo PÓWÓWÓWÓWÓWÓW nos nossos ouvidos. Olha, eu não vou mentir aqui para vocês. Eu também torço pela Seleção. Eu reclamo, falo que não gosto de futebol, que o futebol é o ópio do povo, que os pais deviam dar mais atenção para suas famílias em vez de passar os domingos assistindo jogos pela televisão. Mas, na hora do "vamo vê", eu estou ali, que nem todo mundo, na frente da TV, roendo as unhas e xingando o Dunga a cada jogo da Seleção. Mas entre isso, se pintar de verde e amarelo e começar a tocar uma corneta maluca no ouvido dos outros existe uma enorme diferença. Dá muito bem para se emocionar e torcer pela seleção, se não em silêncio, pelo menos sem esse escândalo todo dessas cornetas. Mas, fazer o quê? Como já dizia meu avô, se você não pode vencê-los, una-se a eles... PÓWÓWÓWÓWÓWÓW
Finalmente, nós conseguimos. Foram tantas queimadas, explosões e escavações que acabamos fazendo um furo no planeta. E não foi um furinho à toa não. Foi um baita de um furo. Um furo que o próprio presidente Obama disse se tratar do “maior desastre ecológico da história dos EUA”. Dá até para imaginar o nosso planetinha azul ali, flutuando no espaço, murchando e se esvaziando que nem uma bexiga furada. Pelo menos, foi essa a imagem que me veio à cabeça depois de ouvir que nem os Estados Unidos da América do Norte, simplesmente a maior potência tecnológica do mundo, não está conseguindo tapar o buraco que a petroleira britânica British Petroleum fez no Golfo do México, e que vem despejando cerca de 19 mil barris de petróleo por dia no mar desde o último 20 de abril. E não foi por falta de tentativas. Eles já tentaram jogar um fluido de alta densidade, semelhante à lama, no local do vazamento. Depois, jogaram pneus velhos, cordas entrelaçadas e até bolas de golfe no buraco. Mas não adiantou nada. O plano inicial de instalar uma cúpula de 125 toneladas sobre o vazamento também falhou depois que cristais de gelo impediram sua instalação. Essa semana, eles usaram até um robô subaquático para tentar alcançar o vazamento, mas não conseguiram. Sei que, com a brincadeira, eles já gastaram mais de 1 bilhão de dólares tentando conter o vazamento. Quer dizer. Além de ninguém saber direito o que pode acontecer com o planeta se não consertarem a coisa, nós ainda temos que ficar assistindo, de braços cruzados, bilhões de dólares escoando, literalmente, pelo ralo. Tudo bem. Provavelmente, o mundo não vai acabar por causa disso. Mas tem hora que eu até fico torcendo para que acabe tudo logo de uma vez. Nós merecemos.
Acabou a festa. Esse papo de que o Brasil é o país da simpatia, do calor humano e do carnaval, em muito pouco tempo vai escoar pelo ralo e ninguém mais vai nem se lembrar de como éramos felizes e não sabíamos. Os sinais dessa mudança estão aí, na cara de todos, e só não vê quem não quer. Para começar, podemos citar os dois principais candidatos à presidência da república. A Dilma, por exemplo, com seu jeitão de general, me faz lembrar a Margaret Thatcher, aquela primeira ministra inglesa que ficou conhecida como a Dama-de-Ferro. Do Serra então, nem se fale. Uma vez eu vi uma foto do José Serra dando uma risada e aquela visão aterradora me causou terríveis pesadelos, dos quais não consegui me livrar até hoje. O José Serra é um dos poucos sujeitos do mundo que pode estrelar qualquer filme de vampiro sem usar nem um grama de blush ou pancake e, assim mesmo, ganhar o prêmio de melhor maquiagem. E como é que vai ficar o Brasil tendo na presidência uma Dama de Ferro ou um Vampiro, se nosso país sempre orgulhou da alegria de suas mulatas, de seu samba e do seu futebol? Aliás, é nesse ponto que a coisa fica mais evidente. Vejam vocês aí o Dunga. Vocês, por um acaso, conseguem ver o Dunga contando uma piada? Ou fazendo uma propaganda de picolé abraçado com a Mulher Melancia? Pois é isso que eu estou falando. Seja na política, seja nos esportes, para todo lugar que a gente olha, só vê gente séria, com os pés-no-chão, fazendo planos para um Brasil de primeiro-mundo como a Alemanha ou a Suíça. Fala sério. Isso aqui vai ficar um tédio.
O grau de idiotice do ser humano parece não ter limites. Como se não bastassem os rodeios e o Big Brother Brasil, agora deu de surgir uns caras que se penduram por ganchos enfiados na própria pele. Eles ficam lá, pendurados, sangrando, e o povo aqui embaixo, assistindo. E alguns deles, como aconteceu essa semana em São Paulo, ainda amarram o gancho num guindaste que levanta os caras mais ou menos até 50 metros de altura.Tudo bem. Débil mental a humanidade já tem faz tempo e não é coisa dos nossos tempos modernos. Veja você aí esses faquires que se deitam em camas de prego a milhares de anos na Índia. Ou aqueles índios brasileiros, que atravessam descalços fogueiras enormes. Ou aqueles outros ainda, de uma ilha no Oceano Pacífico, que pulam de troncos de 30 metros de altura amarrados só nos calcanhares por uns cipós meio podres. Só que, como se pode ver, essas coisas aconteciam só em sociedades mais primitivas, por questões religiosas. Agora, esses caras que se penduram em ganchos registram suas performances em filmezinhos para o youtube, postando links no twitter e abrindo perfis no facebook. Quer dizer, são pessoas razoavelmente esclarecidas, com acesso a tudo o que há de mais moderno na civilização ocidental, e mesmo assim fazem uma coisa idiota como essa. A verdade é que essa nova mania só vem provar uma antiga tese minha. A de que não importa onde tenha nascido, de quem tenha nascido ou em que época tenha nascido. O ser humano sempre consegue se superar no quesito imbecilidade.
Doni, Michel Bastos, Thiago Silva, Felipe Melo e Ramires. Tudo bem, você pode até já ter ouvido falar nesses caras. Mas eu nunca vi mais gordo. Para mim, se você dissesse que eles fazem parte de uma gang de adolescentes recentemente presa em flagrante ao tentar assaltar um vendedor de algodão-doce, eu acreditaria sem pestanejar. Doni? O que será um Doni? Uma nova marca de chocolate recheado de leite condensado caramelizado? E Michel Bastos? É alguma estrela de telenovela mexicana? Thiago Silva seria, por um acaso, algum primo do Lula? E esse Felipe Melo, é o quê? Ministro da Economia da Espanha? E Ramires, meu deus do céu, o que diabos pode ser um Ramires? O nome de algum faraó egípcio? Um personagem do Chávez? Olha, não é que eu tenha alguma coisa contra o Dunga. Inclusive, eu também não sei se levaria aqueles garotos do Santos, especialmente o Ganso. Eu simplesmente não ia aguentar o tanto de piadinha com o tema "afogar o ganso" que iam aparecer. Mas, pombas, parece que, nas últimas copas, eu, pelo menos, conhecia os caras que eram convocados. Agora, mesmo os que eu já ouvi falar, eu não sei mais se é atacante, se é goleiro, reserva ou titular. Para falar a verdade, a verdade mesmo, desse pessoal aí eu só lembro, com toda a segurança, do Kaká e do Robinho. E, vá lá, do Júlio Baptista e do Lúcio eu tenho uma vaga lembrança. Mas os outros são tão desconhecidos para mim quanto a seleção da Etiópia. Se é que a Etiópia tem uma seleção de futebol. E se é que o Brasil tem uma, também.
Não sou muito de falar de futebol. Até mesmo porque, não torço pra time nenhum e sequer consigo assistir um jogo inteiro na televisão sem cair no sono. Mas essa semana, por um acaso, acabei assistindo dois jogos que saíram do comum. Primeiro, foi aquele Santos e Santo André, que parecia um pátio de hospício. Aconteceu de tudo, desde jogadores entrando em campo de óculos e touquinha de nadador, até um que se recusou a sair de campo, quando o técnico resolveu substituí-lo. E isso sem contar aquele monte de jogador expulso e algumas jogadas como há muito não se via. E, como se não bastasse, depois ainda teve aquele Corinthians e Flamengo. Aquela torcida toda, mesmo para quem não gosta de futebol, faz a gente se arrepiar. E foi um tal de fazer contas, o Flamengo podendo perder pela diferença de um gol, o Ronaldão marcando um golaço de cabeça, o Vagner Love fazendo festa com aquele cabelo todo invocado, o Corinthians mandando uma bola na trave faltando cinco minutos para acabar o jogo... Sei que eu fiquei tão animado com esses dois jogos, que eu cheguei para um amigo e comentei que essas partidas me deram vontade de assistir mais futebol. Ele olhou para mim, deu um gole em sua cerveja e resmungou: - Assiste um jogo do Palmeiras que passa…
No seu livro “1984”, o escritor George Orwell criou o Ministério da Verdade. Seria um ótimo Ministério, é claro, se, no caso, ele não fizesse o contrário do que seu nome propagandeava. No Ministério da Verdade, os caras pegavam reportagens e fotos antigas e arrumavam conforme o governo precisasse. Tipos, se no ano passado o Lula apareceu nos jornais abraçado com o Ciro Gomes,dizendo que ele daria um ótimo sucessor, quando a gente fosse procurar esse jornal hoje em dia encontraria, em vez do Ciro, a Dilma, e um texto dizendo dos ótimos trabalhos realizados por ela. Se você pensar bem, embora meio maquiavélica, vai perceber que a idéia, em si, é muito boa. Pode não ser lá muito ética, mas que é boa, é boa.
Tão boa que os publicitários a aplicam há muitos anos, sem ninguém fazer nada a respeito. Quem é que nunca viu, num cartaz do McDonald’s , a foto de um Super McLanche Feliz, com dois hambúrgueres recheados de queijo, alface, tomate, picles, molho especial e pão com gergelim e, na hora que foi comer, verificou que o tal lanche era, na realidade, menor que uma rodela de laranja? Pois agora, tem uma proposta na Câmara que torna obrigatório um aviso de manipulação de imagem, de pessoas ou coisas, em propaganda e publicações. Os publicitários e os donos de revistas já estão reagindo, dizendo que isso é censura. E, para falar a verdade, eu também preferia deixar as coisas do jeito que estão. Para ser sincero, eu acho a vida real de uma chatice sem tamanho. Afinal, quem é que quer topar aí, na capa da Playboy, com as celulites da Gisele Bündchen?
Ou, que deus nos ajude, as rugas da Ana Paula Arósio?
Eu vou ser sincero. Essa história de só vacinar criancinha, idoso e gente jovem contra a gripe suína, pode ter lá suas razões econômicas, ou médicas, ou sei lá. Mas que deixou muita gente brava por aí, deixou. Ou, pelo menos, numa profunda depressão, como é o meu caso.Veja bem. Primeiro, eles vacinaram gestantes, crianças e doentes crônicos. Numa outra etapa, vacinaram a população saudável de 20 a 29 anos. E, para terminar, vacinaram os idosos de mais de 60 anos com doenças crônicas e a população jovem restante, ou seja, quem está entre os 30 e 39 anos. E agora eu te pergunto. E eu? Quem está aí, beirando os 50, não vai ser vacinado contra a gripe? Tudo bem. Eu já estava até me acostumando com a idéia de que nossa sociedade está, a cada dia que passa, sendo construída para os adolescentes. Está difícil, inclusive, de encontrar roupas para pessoas da minha idade. A gente só encontra bermudões enormes para usar com cuecas aparecendo. E a mesma coisa com os livros e o cinema. Estamos sendo invadidos por um monte de filmes e romances de vampiros feitos para adolescentes débeis mentais. Só que, agora, me parece que exageraram. Quando vacinaram primeiro as crianças, os jovens e as mulheres grávidas, eu fiquei quieto. Nada mais natural do que salvar primeiro as mulheres e as crianças. Até mesmo nos naufrágios é assim. Mas, agora, eles estão salvando até os velhinhos com doença crônica primeiro que eu, deus do céu! Aí, para mim, já é perseguição, viu…
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