Tempo perdido

Editoriais
editoriais@uol.com.br

Tempo perdido

Pesquisa sobre nível de alunos no ensino básico mostra desigualdade alarmante entre escolas públicas e particulares


Depois de três anos na escola, a maioria das crianças brasileiras não sabe calcular o troco, desconhece a diferença entre um triângulo e um retângulo, não identifica o tema de um texto simples e é incapaz de ler as horas.
Ler as horas, diga-se de passagem, não num relógio comum. Seria exigir demais. A incapacidade se verifica diante do mostrador de um relógio digital.
Tempo perdido, portanto: a frase, talvez excessivamente dramática, aplica-se ao que acontece nas salas de aula de grande parte das escolas do país, num período crucial para a aquisição de habilidades básicas na leitura, na escrita e na aritmética.
É o resultado a que chegou uma pesquisa em 250 escolas brasileiras, públicas e particulares, realizada pelo movimento Todos pela Educação. A chamada Prova ABC avaliou 6.000 alunos que concluíram o 3º ano (antiga 2ª série) do ensino fundamental, em todas as capitais do país. São crianças que em geral têm 8 anos de idade.
Mais do que as deficiências substantivas constatadas na pesquisa, é o abismo entre alunos de escolas públicas e particulares o que chama a atenção.
Nas escolas pagas, 3/4 das crianças atingiram os resultados esperados em matemática; a porcentagem reduziu-se a 43% entre os alunos da rede pública. Disparidades gritantes também se manifestaram nos testes de leitura (79% contra 49%) e de escrita (82% contra 53%).
Há também diferenças conforme as regiões do país. No Sudeste e no Sul, o índice de desempenho satisfatório dos alunos é superior (respectivamente, 63% e 64%) ao do Nordeste (43%) e ao da região Norte (44%).
Em todas as partes do país, entretanto, o hiato entre escola pública e privada constitui o dado mais impressionante da pesquisa.
Apenas um exemplo. Na região Sudeste, 81% dos alunos de escolas particulares foram bem em matemática. Na rede pública, a proporção cai para 37%.
Confirma-se, é claro, a constatação de que o Brasil tarda a enfrentar o desafio que se segue ao processo, bem-sucedido, de universalização do ensino básico. Garantido o acesso ao ensino fundamental, falta fazer com que se torne, de fato, ensino.
Não é apenas o aluno que marca passo, diante do absenteísmo e da má remuneração dos professores, da carência de material escolar e de orientação pedagógica adequada. É o país inteiro, que se gaba de avançar rumo ao grupo das potências econômicas mundiais, que arrasta, no plano da qualificação da mão de obra e da formação dos cidadãos, o peso de seu passado.

Para além da tragédia

ENTREVISTA

Para além da tragédia

São Paulo, domingo, 21 de agosto de 2011 Folha de S.Paulo - Ilustríssima

É preciso valorizar a narração de histórias no jornalismo, diz o mexicano Juan Villoro

RESUMO
Para o mexicano Juan Villoro, a imprensa deve repensar a maneira como noticia a violência, sob risco de amplificá-la. Na renovação da linguagem jornalística que propõe para a era da internet, a revalorização da crônica seria análoga à reinvenção da pintura que ocorreu no século 19, com o advento da fotografia.


SYLVIA COLOMBO

A GUERRA AO narcotráfico no México já causou mais de 35 mil mortes, entre ações de criminosos e repressão do governo, desde que o presidente Felipe Calderón assumiu, em 2006. Entre os riscos que um repórter mexicano enfrenta estão sequestros, mortes e ameaças de bomba em redações de jornais.
Para o jornalista, escritor e dramaturgo Juan Villoro, 55, outro desafio jornalístico do momento é discutir como e em que linguagem a violência deve ser tratada na imprensa escrita e na internet.
Professor de literatura na Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), Villoro colabora com várias revistas, como a peruana "Etiqueta Negra" e a colombiano-mexicana "Gatopardo", e é colunista dos jornais "Reforma" (México), "El Mercurio" (Chile) e "El Periódico de Catalunya" (Espanha), além de escrever esporadicamente para "El País".
Ficcionista premiado, conquistou o prestigioso Herralde, por "El Testigo" (2004). Também escreve literatura infantil e teatro. Até o final do ano, a Companhia das Letras deve lançar sua primeira obra no Brasil, "O Livro Selvagem".
Villoro falou à Folha em Buenos Aires, onde veio assistir à estreia de sua peça "Filosofia de Vida" num teatro da tradicional avenida Corrientes, e participar de oficina da Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano.

 


Folha - Você diz que o jornalismo está fazendo muitas concessões à violência. De que modo?
Juan Villoro -
No México há uma grande discussão sobre como retratar a violência do narcotráfico, mas acho que ela se aplica a vários países, como a Colômbia e o Brasil, por causa do narcotráfico e do crime organizado, e até mesmo a Londres, para usar um exemplo mais recente.
É inevitável que, ao publicarmos notícias e fotos, amplifiquemos o efeito de um ato violento. Penso que há limites que deveriam ser discutidos, sob risco de fazermos mais propaganda da violência e alimentá-la. E o uso da linguagem tem um papel importante nisso.
Por exemplo, em meu país, quando os traficantes dizem que sequestraram alguém, usam o termo "levantado". E os jornais passaram a fazer o mesmo. É um erro, porque se trata de uma expressão que ameniza o horror do fato.
Por outro lado, há uma busca pela audiência, hoje potencializada pela internet, que faz com que tudo o que tenha sangue seja valorizado. A máxima "if it bleeds, it leads" [se sangra, tem destaque] nunca foi tão verdadeira.
O que muitos editores não se dão conta é que, se você busca ressaltar apenas o mais sangrento, corre o risco de provocar uma distorção da verdade, na qual os acontecimentos mais importantes são os violentos.
Na verdade, a violência é sempre consequência de alguma coisa, parte de um contexto que precisa ser explicado.

Você diz que a internet está fazendo com que o jornalismo fique cada vez mais homogêneo. Por quê?
O que constato observando a imprensa europeia, norte-americana e latino-americana é que, mais do que nunca, para os veículos, parece ser necessário publicar aquilo que todos publicam. O acesso quase geral a informações homogêneas curiosamente criou um pânico de sair do homogêneo.
Há um medo generalizado. Os jornalistas não podem se conformar com a ideia de que algo que está na capa de sete jornais não esteja na capa do seu. Então a reação é ir atrás do mesmo. Trata-se de um impulso de sobrevivência.

Isso é bom ou ruim?
Em certo sentido, é bom, porque é mais fácil que todos fiquem bem informados sobre acontecimentos de alcance mais global. Mas a fortaleza do jornalismo não está aí, e sim no oposto disso. O jornalismo pode fazer coisas únicas, tanto no papel como em formato digital, basta que haja investimento. É preciso valorizar a narração de histórias, pois elas dão sentido ao mundo. Creio que, nesse momento de confusão e transição, é preciso recobrar a confiança nos recursos do próprio jornalismo.

Pode dar um exemplo?
É possível aproveitar essa onda de mudanças num sentido positivo. Se é mais fácil hoje obter as notícias que todo mundo tem, por que não usamos menos gente nisso, aproveitando mais o material de agências internacionais? Se economizarmos no comum, é possível fazer com que a orquestra funcione quase sozinha e investir nos solistas, naqueles jornalistas que farão a diferença por sua capacidade de encontrar bons assuntos e narrá-los bem.
Por um lado, é um jornalismo mais caro, gasta-se com a contratação de bons profissionais, tempo, viagens. Mas pense que se poderia economizar em outras coisas.

Por isso a sua defesa da crônica?
Sim. Quando surgiu a fotografia, a pintura recobrou recursos que a diferenciavam dela. O mesmo se passa com o jornalismo diante das novas tecnologias. E a crônica é o melhor recurso que o jornalismo tem para enfrentar esses novos tempos. É a mescla da informação com a emoção, do mundo objetivo, público, com o mundo privado ou íntimo. Por meio dela, ao mesmo tempo pode-se descrever a notícia que afeta uma comunidade e entender sua repercussão individual. E, a partir disso, analisar por que essa notícia transforma a vida de certas pessoas.
Interessa-me defender a crônica do cotidiano, situações, cenas mínimas, um jornalismo colorido que não é o mais urgente nem o mais necessário, mas que sempre permitiu que o jornalismo prosperasse, desde os tempos de Machado de Assis ou Nelson Rodrigues, exemplos brasileiros que adoro.
Mas, apesar disso, as revistas de crônica, que estão na moda na América Latina, como a "Etiqueta Negra" ou a "Gatopardo", sempre amargam dificuldades financeiras.
Sim, é uma situação complexa. A crônica tem muito prestígio cultural. Se você perguntar a um ministro da Cultura, a um empresário ou a um leitor comum se eles gostam de crônica, vão dizer que sim, porque ela evoca o humano, o real. E ninguém vai se dizer contra isso. É diferente com relação ao teatro ou à música clássica, que têm públicos mais definidos.
No entanto, todas as revistas que se dedicam a crônicas têm dificuldades para subsistir. É muito difícil que paguem bem aos cronistas. Muitas, quando pagam, é de forma simbólica e heroica. Além de não terem verba para te mandarem viajar ou para facilitar que você apure a informação.
Outro dia, eu estava olhando o índice de um livro meu, de crônicas. Notei que 80% delas tinham saído em veículos que não existem mais. São publicações efêmeras, suicidas. Nós, cronistas, temos prestígio, mas a nossa transcendência não é tão grande. A saída é escrever muito, para muitos veículos, e escrever livros que tenham potencial de venda, como no meu caso, que faço livros infantis. Eu posso viver do meu trabalho, mas para isso trabalho o tempo todo.
Mas acho que, se me dessem as condições da "New Yorker", eu me sentiria conformado e não faria o mesmo tipo de trabalho. Os cronistas têm certa dose de masoquismo funcional, o que nos machuca nos fortalece (risos).

Em seu livro "8.8 - El Miedo en el Espejo", sobre o terremoto do Chile, você faz considerações sobre a essência dos mexicanos que me fizeram lembrar a busca de Octavio Paz (1914-98) em "Labirinto da Solidão" (1950). É uma influência?
É uma referência. Nesse livro, Paz tenta fixar uma identidade do mexicano por trás das sucessivas histórias que viveu. Foi um exercício muito interessante, que serviu para que o mexicano se reconhecesse em sua diferença.
Essa era a proposta inicial, mas o próprio Paz percebeu que havia algo redutor nessa busca, porque o mexicano não pode ser sempre tipicamente da mesma maneira.
Então ele escreveu um livro, que se chama "Postdata" (1950), em que dinamiza essas questões. Diz que o mexicano não é uma essência, mas uma história. Que não se deve buscar seu verdadeiro rosto, mas entender que esse rosto tem uma história e vai mudando.
Sempre que escrevo, estou em busca das características do mexicano, mas gostaria de pensar que não são características definitivas. Há muitas maneiras de ser mexicano. Hoje, o mexicano típico existe como um recurso folclórico e nada mais.

Em "8.8", você destaca a capacidade, ou mesmo a certeza, de sobreviver.
Exato, porque tomo o exemplo de como sobrevivemos ao terremoto de 1986 e de como essa ideia de superar uma tragédia se incorporou à nossa personalidade.
O mexicano adota no seu dia a dia uma conduta pós-apocalíptica. Vemos a realidade desastrosa, por exemplo na Cidade do México, que é contaminada, insegura e cheia dos problemas conhecidos. Isso nos traz uma série de ameaças tremendas. Mas não as vemos como o anúncio de algo terrível que vai acontecer, e sim como o resultado de algo mítico, que já passou e do qual já nos salvamos. Estamos sempre além da tragédia.
Não passa de autoengano, mas é eficaz. Graças a isso, podemos viver. Pensamos: está tudo muito grave, mas continuamos de pé.

Em um texto para a revista peruana "Etiqueta Negra", você analisou a personalidade e o drama do goleiro alemão Robert Enke, que se matou aos 32 anos. Qual é o elemento dramático do futebol que te atrai?
O futebol me interessa muito, por isso li tanto Nelson Rodrigues. Para um mexicano, o futebol é sempre uma tragédia. Porque adoramos e ao mesmo tempo jogamos muito mal. O México sempre tem um plano "b" nas copas que é torcer para o Brasil. Plano "b" para nós é "b" de Brasil.
Escrever crônicas de futebol no México tem mais a ver com o desejo, com a paixão, do que com grandes vitórias, pois nunca as tivemos. E eu, mais do que um cronista esportivo, sou um cronista da torcida e da ilusão.
O que me cativa é tentar entender por que se enche um estádio, por que as pessoas organizam sua vida de maneira ilusória, por que alguém se esquece do seu aniversário de casamento, mas não de que, nesse dia, Garrincha fez dois gols em não sei qual time.
Para conhecer uma época, temos que entender como as pessoas se divertiam, e a forma de diversão mais organizada do planeta em nosso tempo é o futebol.
Foi por isso que me interessou o drama de Enke, um jogador jovem, que atingiu a fama numa das posições mais difíceis e isoladas. E resolveu se matar.

Ao publicarmos notícias e fotos, amplificamos o efeito de atos violentos. Há limites que devem ser discutidos, sob risco de fazermos propaganda da violência

A crônica é o melhor recurso que o jornalismo tem para enfrentar os novos tempos. É a mescla da informação com a emoção, do mundo público com o privado

Escrever crônicas de futebol no México tem mais a ver com o desejo, com a paixão, do que com grandes vitórias, pois nunca as tivemos. Sou um cronista da torcida e da ilusão

artigo na folha, do paulo oh coelho

TENDÊNCIAS/DEBATES

Pirateiem meus livros

PAULO COELHO


A "pirataria" é o seu primeiro contato com o trabalho do artista: se essa ideia for boa, você gostará de tê-la; uma ideia consistente dispensa proteção



Em meados do século 20, começaram a circular na antiga União Soviética vários livros mimeografados questionando o sistema político. Seus autores jamais ganharam um centavo de direitos autorais.
Pelo contrário: foram perseguidos, desmoralizados na imprensa oficial, exilados para os famosos gulags na Sibéria. Mesmo assim, continuaram escrevendo.
Por quê? Porque precisavam dividir o que sentiam. Dos Evangelhos aos manifestos políticos, a literatura permitiu que ideias pudessem viajar e, eventualmente, transformar o mundo.
Nada contra ganhar dinheiro com livros: eu vivo disso. Mas o que ocorre no presente? A indústria se mobiliza para aprovar leis contra a "pirataria intelectual". Dependendo do país, o "pirata" -ou seja, aquele que está propagando arte na rede- poderá terminar na cadeia.
E eu com isso? Como autor, deveria estar defendendo a "propriedade intelectual". Mas não estou. Piratas do mundo, uni-vos e pirateiem tudo que escrevi!
A época jurássica, em que uma ideia tinha dono, desapareceu para sempre. Primeiro, porque tudo que o mundo faz é reciclar os mesmos quatro temas: uma história de amor a dois, um triângulo amoroso, a luta pelo poder e a narração de uma viagem. Segundo, porque quem escreve deseja ser lido -em um jornal, em um blog, em um panfleto, em um muro.
Quanto mais escutamos uma canção no rádio, mais temos vontade de comprar o CD. Isso funciona também para a literatura: quanto mais gente "piratear" um livro, melhor. Se gostou do começo, irá comprá-lo no dia seguinte -já que não há nada mais cansativo que ler longos textos em tela de computador.
1 - Algumas pessoas dirão: você é rico o bastante para permitir que seus textos sejam divulgados livremente. É verdade: sou rico. Mas foi a vontade de ganhar dinheiro que me levou a escrever?
Não. Minha família, meus professores, todos diziam que a profissão de escritor não tinha futuro. Comecei a escrever -e continuo escrevendo- porque me dá prazer e porque justifica minha existência. Se dinheiro fosse o motivo, já podia ter parado de escrever e de aturar as invariáveis críticas negativas.
2 - A indústria dirá: artistas não podem sobreviver se não forem pagos. A vantagem da internet é a divulgação gratuita do seu trabalho.
Em 1999, quando fui publicado pela primeira vez na Rússia (tiragem de 3.000 exemplares), o país logo enfrentou uma crise de fornecimento de papel. Por acaso, descobri uma edição "pirata" de "O Alquimista" e postei na minha página. Um ano depois, a crise já solucionada, eu vendia 10 mil cópias.
Chegamos a 2002 com 1 milhão de cópias; hoje, tenho mais de 12 milhões de livros naquele país.
Quando cruzei a Rússia de trem, encontrei várias pessoas que diziam ter tido o primeiro contato com meu trabalho por meio daquela cópia "pirata" na minha página.
Hoje, mantenho o "Pirate Coelho", colocando endereços (URLs) de livros meus que estão em sites de compartilhamento de arquivos. E minhas vendagens só fazem crescer -cerca de 140 milhões de exemplares no mundo.
Quando você come uma laranja, precisa voltar para comprar outra.
Nesse caso, faz sentido cobrar no momento da venda do produto.
No caso da arte, você não está comprando papel, tinta, pincel, tela ou notas musicais, mas, sim, a ideia que nasce da combinação desses produtos.
A "pirataria" é o seu primeiro contato com o trabalho do artista.
Se a ideia for boa, você gostará de tê-la em sua casa; uma ideia consistente não precisa de proteção.
O resto é ganância ou ignorância.

PAULO COELHO , escritor e compositor, é membro da Academia Brasileira de Letras. É autor de, entre outros livros, "O Alquimista" e "A Bruxa de Portobello".

horários

Domingo passado foi até legal. Na hora que a gente achou que o fim de semana tava acabando, atrasamos os relógios e ganhamos uma horinha a mais. Foi o fim do Horário de Verão. Mas durante a semana, eu vou te falar uma coisa. Acordei todo dia de mau humor. Eu demoro pelo menos uns dez dias até me acostumar com essa hora esquisita de dormir e acordar, e sempre me dá fome  às 11 da manhã. Aí eu fico pensando. Não era mais negócio todo mundo fazer o seu próprio horário particular, conforme lhe desse na telha?  Já pensou que maravilha? Acordar na hora que eu quero, dormir na hora que eu cansar, e comer na hora que eu tiver fome? Se você pensar bem, até o trânsito melhorava. Porque não ia mais sair todo mundo na mesma hora para ir trabalhar. Uns iam às seis da manhã. Outros às nove. E na hora da volta, a mesma coisa. Uns iam sair às seis da tarde, outros à noite. Então não ia mais ter aquele problema todo com o trânsito. Veja bem, é claro que tem o negócio dos empregos. Mas a gente podia fazer uns contratos se comprometendo a trabalhar oito horas por dia. Seja de manhã, à tarde ou à noite. E estamos conversados. Não ficava bom pra todo mundo?

aposentadoria

Olha. Eu não tenho nada contra o Ronaldão. Eu só acho que ele é... um simples jogador de futebol. Um bom jogador de futebol, vá lá, um pouco mais articulado do que seus colegas de profissão, mas nada além de um jogador de futebol. E eu não entendo como é possível que o fato de um jogador de futebol se aposentar tenha tamanha relevância que o leve às capas dos maiores jornais do mundo e que equipes de TV interrompam a programação normal de suas emissoras para transmitirem ao vivo o que deveria ser um simples discurso de despedida. A coisa saiu tanto de suas devidas proporções que teve uma tia minha que chorou copiosamente durante a entrevista na TV, e não parava de dizer “coitado” toda hora que o Ronaldão passava as mãos pelos olhos. Mas “coitado” por quê, meu deus do céu? Coitado porque ele conheceu o mundo inteiro e educou seus filhos nas melhores escolas da Europa? Coitado porque ele era disputado a tapas por mulheres maravilhosas que a gente só vai conhecer em revista? Coitado porque o salário dele beirava os 2 milhões de reais? Oras, coitados de nós, que damos tanta importância a fatos tão irrelevantes quanto a aposentadoria de um jogador de futebol, e nos esquecemos completamente que, no quesito educação, o Brasil fica atrás de nações como o Chile, Trinidad e Tobago, Colômbia ou México que, aliás, nunca nem chegaram perto de ser campeãs mundiais de futebol.

pode ser no cartão?

Eu descobri, e muito atrasado, que a gente só é pobre porque não sabe cobrar. Chegou pra mim agora, pediu qualquer coisa, vai ser ali, na bucha: é tanto. Nem se for uns centavinhos, eu vou cobrar. Se meu filho chegar pra mim e disser “ô pai, me leva na escola?”, é dez pau. E não adianta espernear. A mulher veio encostando, perguntando se a gente não quer fazer uma visitinha na casa da sogra nesse final de semana? Duzentinho. Sem tirar nem pôr. Mas a minha maior fonte de lucros mesmo vai ficar com os amigos. Já percebeu o tanto de coisa que a gente faz de graça pros amigos em apenas um dia? O cara está ali, na frente do computador, e pergunta para a gente “Que horas são?”. Pois agora eu vou responder: É dois reais. Se quiser, quer, se não quiser, olha aí no computador, que tem a hora bem ali, no cantinho. Mas tem aqueles serviços que demandam um pouco mais de sacrifício. Por exemplo, a gente está saindo do serviço, e o cara chega e solta: “Pombas, cara, minha mulher me largou”. Antes da gente começar, eu já vou cobrar cenzinho. E ele tem de agradecer. Um psicólogo cobra muito mais caro. Cenzinho tá de graça.

big brother

Sabe do que eu realmente ando cheio? Do tanto de gente metendo o pau no tal do Big Brother Brasil. Os colunistas de jornais se sentem enojados com tanta desinformação. Os professores de português ficam revoltados com os erros linguísticos grosseiros dos participantes. Os religiosos se sentem ultrajados com as liberdades sexuais exibidas ali, ao vivo, em rede nacional. Olha. Longe de mim gostar do Big Brother Brasil. O que eu não me conformo é a importância exagerada que as pessoas dão para um reles programinha de TV. É, isso mesmo, apesar de toda aquela audiência, dos milhões de reais envolvidos e de todo esse bafafá em torno de seus integrantes, esse BBB é só um “programinha de TV”, feito para as pessoas se divertirem um pouco, darem umas risadas e irem dormir. E não tem cabimento achar que a droga de um programa de TV tenha o poder de transformar alguém, para pior ou para melhor. Se fosse assim, o que não teria sido de nossas criancinhas que cresceram assistindo o Pica Pau transformar num verdadeiro inferno qualquer um que cruzasse o seu caminho? Ou de nossas adolescentes, que cresceram se requebrando como a Xuxa? E dos adultos, rindo semanalmente das piadas idiotas do “Zorra Total”? Além do mais, não existe coisa mais fácil de se livrar do que de um programa de TV. Basta apertar um botão e CLICK, milagrosamente você está em outro canal. Ou, ainda melhor. Sua televisão se desliga.

pensão

Agora virou moda. Todo mundo quer pensão. Como se já não bastassem aposentadorias de ex-prefeitos e ex-governadores, como as do senador eleito Eduardo Braga, que já recebe aposentadoria como ex- governador e como ex-deputado e agora, daqui a alguns anos, talvez também receba como senador. Pois agora, duas tetranetas de Tiradentes também estão pedindo pensão. É isso mesmo que você leu. Mais de 200 anos após a morte de Tiradentes, duas tetranetas do mártir da Inconfidência pretendem reivindicar uma pensão especial do governo que, aliás, uma irmã delas já recebe, graças a uma lei sancionada em 1996 pelo Fernando Henrique Cardoso. Quer dizer, não vai demorar muito para começar a aparecer filho, neto, bisneto, trineto, tetraneto, pentaneto, hexaneto, septaneto, octaneto e... e... e daí por diante, de tudo o que é figura histórica que mereça aí uma homenagem. Como é que vai ficar se as tetranetas do Tiradentes ganharem essa pensão, e os hexanetos do Pedro Álvares Cabral não? E os parentes de D. Pedro I? E do Marechal Deodoro da Fonseca? E do Rui Barbosa? E do Santos Dumont? Se você for pensar bem, até os parentes do Garrincha mereciam uma graninha, não é não?

a questão do umbigo

Outro dia desses, aqui mesmo, na TV Unifev, passou uma reportagem falando das enxurradas que aconteceram em Votuporanga. Fiquei tão impressionado, que chamei a atenção de uns amigos que estavam ali por perto. Um deu uma olhadinha na TV assim por cima, quase por obrigação, e resmungou alguma coisa inaudível. O outro, sequer se deu ao trabalho de olhar, e apenas concordou com um “É, a coisa tá feia mesmo”. Inconformado, falei para eles olharem de novo, mas dessa vez enfatizei com um “pombas, eu nunca vi nada parecido acontecer aqui em Votuporanga”. Ao ouvirem a palavra “Votuporanga”, não apenas os dois amigos, como mais duas ou três pessoas que estavam em volta, se levantaram e vieram dar uma olhadinha, todos eles dizendo que achavam que se tratava do Rio de Janeiro. Por meio dessa historiazinha aparentemente banal, só podemos chegar a uma constatação. A verdade é que o ser humano não está nem aí para as tragédias que acontecem com seus vizinhos. A gente fica observando na TV aquele monte de gente no Rio de Janeiro que perdeu tudo, suas casas, suas famílias, e depois de alguns segundos fazendo cara de tristeza, mudamos de canal para assistir a estréia do Big Brother Brasil. Só nos preocupamos mesmo quando a água bate nos nossos devidos umbigos.

medo

Coisa mais estranha. Não sei se o Lula acostumou a gente mal, ou o que é, mas eu ando achando tudo muito quieto ultimamente, você não acha não? Não tem mais aqueles discursos eufóricos, nem ninguém falando mal da imprensa. Nada. Para falar a verdade, eu tenho sentido falta até de um bom e velho escândalo, daqueles de abalar as bases da república. Tipos aquele do Mensalão, ou o da Quebra do Sigilo Bancário do Caseiro Francenildo, ou uns escândalozinhos menores, como aquele da Operação “tapa-buracos” ou mesmo esse mais recente, da Erenice Guerra, na Casa Civil, que quase melou a candidatura da Dilma. Pelo menos, durante esses casos, a gente sabia muito bem quem eram os envolvidos, toda a imprensa ficava de orelhas em pé e a população tinha de quem falar mal durante algum tempo. Agora, de uns tempos para cá, a coisa toda se aquietou de tal maneira que a gente fica até desconfiado. O que será que esse povo anda tramando lá em Brasília, hem? Dá até medo, viu...

Alalaô-ôôô-ôôô

Eu sou um jornalista que ganha a vida com publicidade. Ou um publicitário que encasquetou que também era jornalista. Tanto faz. O negócio é que eu trabalho em duas profissões que são afetadas diretamente pelas datas comemorativas. E isso, à vezes, pode se tornar um inferno. Na agência que eu trabalho, por exemplo, chega perto de dezembro e começam as encomendas de campanhas e cartões com mensagens natalinas. Tudo bem se fossem uns dois ou três trabalhos. Dá para ser criativo em duas ou três idéias sobre o mesmo tema. Mas, vamos ser sinceros: não dá para ser criativo com dezenas de mensagens. E é do mesmo jeito com o jornalismo. Quem é que não está cansado de ver aquela velha reportagem que se repete todos os anos em todos os canais de TV, com aquelas entrevistas com as criancinhas perguntando o que elas pediram para o Papai-Noel? É tudo sempre tão igual que dá tranquilamente para passar uma dessas reportagens de quatro anos que ninguém vai nem perceber. E agora chegou a vez do Carnaval. Nem bem acabaram as festas de fim de ano, e todo mundo já começa a se coçar por causa do Carnaval. Gente, espera aí.  O meu fígado ainda está todo enrolado com a ceia do reveillon, e esse povo já está pensando no Carnaval? O Carnaval desse ano é só em março, pessoal. Vamos com calma, tá?

vagabundo não!

Esse papo de que o trabalho enobrece o homem é conversa de patrão. O ser humano é, antes de tudo, um vagabundo. Você aí, que vive se torturando, achando que o seu avô, ele sim, era um homem de verdade, que se entregava de corpo e alma para o trabalho, e que você não passa de um desocupado sem vergonha, que só pensa em 13º, férias e fim de semana, pode parar de pensar essas bobagens.  A verdade é que o seu avô era igualzinho a você, só que... digamos... disfarçava melhor. E se você não acredita nisso, basta observar melhor os animais. Olhando assim, por cima, a gente pode achar até que muitos animais são perigosos o tempo todo, mas não são. Eles só são perigosos quando estão com fome. Eu já vi várias vezes na National Geographic um leão deitado, ao lado de uma zebra, ambos na maior boa. E isso acontece porque o leão só se levanta quando está com fome. O resto do tempo ele passa ali, no maior bodão. A conclusão a que se chega com essa história toda é muito simples. As férias são nosso ambiente natural, mas, para curti-las, é preciso estar, no mínimo, bem alimentado, tarefa para a qual devemos gastar o mínimo tempo e esforço possíveis. Não é a toa que, em menos de cinco minutos, o Senado Federal aprovou o projeto que aumenta o salário dos deputados, senadores, presidente, vice-presidente e ministros. Afinal, está todo mundo para entrar de férias, gente... E não dá para entrar de férias de estômago vazio, não é mesmo?

 

Democracia no olho dos outros é refresco

Se você não ouviu falar do WikiLeaks, ainda vai ouvir. Porque está todo mundo falando dele. O WikiLeaks é uma espécie de site de fofocas, só que em grande escala. Em vez dele ficar falando sobre os namoricos de celebridades, ele publica documentos ultra-secretos de países dos países ricos, que ele arranja sabe-se deus como. O site começou a ficar conhecido no início deste ano, quando divulgou um vídeo no qual militares dos Estados Unidos fuzilam iraquianos de um helicóptero e acabam matando dois funcionários da agência de notícias Reuters. Depois disso, eles já divulgaram mais de 1 milhão de documentos secretos dos Estados Unidos, da Inglaterra, da China e até de umas multinacionais. Agora, de uns dias para cá, as grandes potências resolveram dar o troco. O fundador do site, o autraliano Julian Assange, entrou na lista dos mais procurados da Interpol e foi preso. Em protesto, o primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, disse que a prisão mostra que o Ocidente tem grandes problemas com a democracia. E até mesmo o nosso Lula se meteu no meio, dizendo que “que o erro não é do site que divulgou, mas dos políticos que fizeram os documentos”. O que não deixa de ser verdade. Se você pensar bem, a única coisa que o WikiLeaks faz é investigar e divulgar as sacanagens que os países mais poderosos têm feito por aí. Lá de onde eu venho isso se chama JORNALISMO. E prender o dono do site se chama CENSURA. Qualquer outra coisa que digam, é historinha para boi dormir.

alguém aí conhece um bom curso de LIBRAS?

Semana passada, eu peguei uma baita duma gripe. Não parecia nada demais, tomei um Resprin e achei que ia ficar tudo bem. Que nada. Caí de cama. Tive que faltar do trabalho e nem deu para vir aqui, gravar a minha crônica semanal. Mas o pior nem foi isso. Passaram uns dias, começou a me dar uma dor de ouvido de matar. Também deixei correr, achei que com o tempo passava. Mas teve um dia, que eu acordei completamente surdo desse ouvido. Fui num otorrino amigo meu, que disse que a coisa era mais grave do que eu achava. Estava tudo inflamado, o tímpano estava meio machucado. Sei que ele me receitou uns remédios, um antiinflamatório, um antibiótico. Mas avisou que, ouvir direito, só para daqui umas duas semanas. Eu tive que me conformar, fazer o quê? Para falar a verdade, tem hora que eu até agradeço não conseguir mais ouvir meu vizinho tocando música sertaneja até altas horas da madrugada. Nem os carros de som anunciando ofertas de supermercado. Nem o Jornal Nacional avisando do último escândalo político. A coisa está indo tão bem, que eu ando até pensando em pedir para o otorrino deixar o outro ouvido surdo por uns tempos também. Pra tirar ums férias, sabe como é?

Game Over

Não sei se você já percebeu, mas essa criançada de hoje em dia perdeu um pouco a noção do caráter irrevogável da morte. Muito provavelmente por causa dos videogames. Você já deve ter visto por aí um sobrinho ou um neto com os olhos pregados na tela de um game, soltando a expressão “espera um pouco que eu só tenho mais duas vidas”. A morte, hoje em dia, se tornou uma coisa meio distante. Desprezível, até. Dá sempre pra ganhar umas vidas a mais, e continuar no jogo. É por isso que não é de se espantar que, quando a gente fica olhando na TV essas imagens do Rio de Janeiro, com bandidos armados de metralhadoras e lançadores de mísseis, tudo nos pareça coisa de ficção. Afinal, bandidos de armas em punho, atirando pelas ruas, a maioria de nós nunca viu, a não ser em filmes de Hollywood. Ou em videogames. Aqueles policiais vestidos de preto fazem a gente se embaralhar. A gente não sabe se está assistindo cenas do filme “Tropa de Elite” ou ao Jornal nacional. Até mesmo porque , tudo filmado foi filmado no mesmo Rio de Janeiro, talvez até na mesma esquina. Sei lá. Acho que já está mais do que na hora da gente puxar o fio da tomada e começar a se preocupar com a vida real. É, essa vida chata aí, em que gente morre de verdade.

[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]